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domingo, 23 de abril de 2017

A Páscoa brasileira no cenário de crise econômica

Por: Dora Abreu
 
Consultora Ambiental - Mestre em Gerenciamento e Tecnologias Ambientais
 
 
 
A crise econômica atual no Brasil tem sido o foco de todas as atenções, já que ela tem gerado muitos dissabores para a população brasileira. No entanto, confirmando o discurso dos otimistas, que acreditam que para tudo de ruim na vida, sempre existe o lado bom, alguns aspectos positivos podem mesmo já ser identificados nesse turbilhão de problemas que afetam o nosso país.
 
Nunca as pessoas precisaram usar tanto a criatividade para buscar novas formas de gerar dinheiro. Economizar água, energia; aproveitar o máximo os materiais, buscando novos formatos para eles; comprar roupas usadas nas lojas brechós, artigos de fabricação menos industrial, em pequenos bazares, são exemplos de iniciativas que estão cada vez mais presentes nos diversos espaços sociais.
 
O fato é que as pessoas estão abandonando as compras e serviços supérfluos, optando por uma forma mais simples de viver. Alguns bons valores, como a solidariedade, começam a ser mais praticados, já que um ou mais dos nossos amigos, ou mesmo integrantes da nossa família, estão passando por algum tipo de dificuldade financeira e, assim, precisam de nossa ajuda. Nestas condições acabamos tirando um pouquinho daqui, esticando outro pouquinho dali, para ajudar a quem nos são caros. Uma onda de empatia e solidariedade invade nossa alma.
 
No que se refere ao meio ambiente, a crise econômica também lhe confere algumas boas vantagens: uso racional dos recursos naturais e soluções criativas que podem preservar estes recursos.
 
Neste contexto, vale a seguinte reflexão. “Será que teremos sempre que esperar as crises para atuar com mais determinação na construção de um mundo melhor?”
 
A história tem demonstrado que, fora do ambiente das crises, a sociedade moderna não deseja abrir mão de certos confortos para beneficiar as questões ambientais ou a qualquer outro ser, exceto quando se trata da sua própria família.
 
E o que nos fazem tão egoístas e insensíveis, a ponto de não percebermos que, ao beneficiar aquilo que nos cerca, estamos beneficiando a nós mesmos? A ilusão do viver aqui e agora, tirando vantagem de tudo e de todos, é equivocada e pode nos levar, em breve, a um grande colapso, já que nada acontece de forma pontual e isolada. Estamos todos conectados por uma teia invisível que nos une no universo. O livro a "A Teia da Vida", de Fritjop Capra e a Carta do Cacique de Seatlle, enviada em 1855 ao presidente dos Estados como resposta a sua proposta de comprar as terras que pertenciam aos índios, nos trazem boas reflexões sobre essa conexão invisível: "O que fere a terra fere também os filhos da terra. O homem não tece a teia da vida; é antes um de seus fios. O que quer que faça a essa teia, faz a si próprio”.
 
O período da Páscoa, que foi comemorado na semana passada, deveria despertar nas pessoas boas reflexões, já que a relação com a Páscoa, comemorada pelos cristãos, tem como foco a Ressurreição de Cristo, que representa a esperança de uma nova vida para toda a humanidade, baseada em valores de fraternidade e amor ao próximo. O que precisamos de fato para nos renovar?
 
Os famosos ovos da Páscoa, considerado símbolo do nascimento e da vida, feitos de chocolates e embalagens diversas, repletas de tantos papéis os quais vão se tornar mais adiante em um monte de resíduos, acabam perdendo este simbolismo e se tornando mais um estímulo ao consumismo exagerado.
 
Mas neste ano de 2017, graças à crise econômica, as pessoas repensaram esta forma exagerada de consumir e de gerar resíduos optando por barras de chocolates ou mesmo por pequenos brigadeiros, muitos deles feitos artesanalmente. Tudo feito ou adquirido de maneira simples, sem que tenha se perdido com isso o carinho que vai sempre impregnado nestas delicias.
 
A crise econômica também deixou este ano o almoço da Sexta Feira da Paixão menos farto, mais pontuado de pratos mais simples e menos calóricos, sem que tenha se perdido com isso o prazer da reunião com a família para celebrar a fraternidade e a união das pessoas.
 
É certo que não desejamos a crise financeira, mas precisamos tirar proveito dela para refletirmos os nossos valores e atitudes, não só aquelas que retratam a forma que tratamos nossos recursos naturais, mas principalmente, aquelas que retratam como tratamos a nós mesmos e as pessoas que nos relacionamos.
 
Que as comemorações da Páscoa tenha deixado em cada um de nós uma reflexão positiva. E que cada crise que nos depararmos possa apontar uma saída criativa, capaz de beneficiar não só a nós, mas também ao coletivo!